Alto Parnaíba – MA

Partindo de Riachão, percorremos por 301 quilômetros até Alto Parnaíba pela MA 006. Este trajeto é um verdadeiro desafio. Uma rodovia, se é que se pode nomear assim, totalmente abandonada pelo governo estadual, há anos. Perigosa e totalmente esburacada. Melhor seria se arrancassem de uma vez os resquicios do que um dia foi asfalto. Aquele trecho merece atenção, pois liga o Polo da Chapada das Mesas e Parque Nacional Nascentes do Parnaíba, no Maranhão, ao Parque Estadual do Jalapão, no Tocantins.

Vencido o trajeto, no qual deixamos os faróis de milha pelo caminho, chegamos a Alto Parnaíba e fomos rececionados por Claudio Caron (secretário de Meio Ambiente) e Ubirajara Lustosa Pires Junior (Diretor do Instituto de Terras de Alto Parnaíba), o Bira. Logo, tratamos de organizar as nossas incursões. Naquele mesmo dia seguimos para a Serra da Mangabeira. De lá é possível observar toda a Alto Parnaíba, bem como as serras que estão no estado vizinho do Piauí. Impossível deixar de comentar é a dança sinuosa que faz rio Parnaíba para marcar as fronteiras entre os estados.

Na manhã seguinte, Carom e Bira nos levaram para conhecer o fervedouro. Segundo Caron, o único encontrado no estado do Maranhão. Já tivemos a oportunidade de conhecer os fervedouros do Jalapão. Ao entrar pela primeira vez num fervedouro é impossível não abrir um largo sorriso ao perceber que se está flutuando em uma piscina de água natural sobre uma potente nascente. E quando falamos em flutuar, queremos dizer que você pode até tentar, mas não conseguirá afundar. A pressão exercida pela água que jorra do lençol freático para a nascente é capaz de manter as pessoas em flutuação constante, sem nenhum esforço. A leveza com que se flutua no fervedouro é incomparável. Essas piscinas naturais, tem em média, 90 metros de profundidade. Uma camada de areia parece formar o fundo, porém é apenas impressão. Esta camada, assim como nosso corpo, está em contante flutuação. É incrivelmente estranha e fantástica a sensação. Uma mistura de medo e fascínio. Foi na busca deste lugar que encontramos o “Pantera Negra”, um sertanejo contador de causos e muito alegre. Disposição deveria ser o seu codinome. Para chegarmos ao fervedouro era necessário atravessar o rio Parnaibinha, surpresa: quando chegamos à margem, a canoa estava no outro lado. Quando já estávamos pensando em desistir da incursão, um barulho na água. Pantera Negra havia mergulhado e quando pudemos vê-lo, já estava na metade do rio. Realizou a travessia sem dificuldades, demonstrava uma aptidão física invejável. E lá veio ele, com a canoa. Quando atracou, nova surpresa: a “bichinha” estava toda remendada e o convés com um baita buraco. Afunda não! Disse ele… confiamos no experiente sertanejo, embarcamos na velha canoa e seguimos para a outra margem. Ganhamos um novo amigo.

Já se fazia passado do meio dia quando deixamos o local. A fome começava a roncar as barrigas, foi quando Pantera Negra sugeriu que fôssemos até a casa de Vivaldinho, seu amigo. Nos disse que lá seria possível desfrutar de um bom prato. Não pensamos duas vezes, logo pegamos o caminho. A poeira na estrada levantava na secura do cerrado. Na casa de Vivaldinho fomos muito bem recebidos. Sem pestanejar, nos convidou a sentarmos à sombra enquanto sua esposa preparava a refeição. Não demorou e fomos presenteados com um belo prato de “Maria Isabel” – Arroz com carne de sol, toucinho de porco, calabreza e tempero verde, um prato que não pode faltar na mesa nordestina.

Papo vai, papo vem, as horas passaram. Era momento da despedida e seguir a jornada. Precisávamos voltar a Alto Parnaíba, o dia não demoraria findar. No caminho de volta deixamos Pantera Negra em sua casa. Aquele moço tão alegre e disposto, vive numa casa muito modesta acompanhado de seus amigos: um gato, um cachorro e uma mula.

Em 2017 tivemos a oportunidade de passar por Alto Parnaíba. Os caminhos mais difíceis em geral guardam as mais belas imagens que nem sempre ficam registradas nos cartões de memória, mas em nós. Pensando assim decidimos chegar em Alto Parnaíba por uma rota não muito convencional que foi cruzando o Parque Estadual do Jalapão no estado do Tocantins. Uma aventura que foi de “arrepiar”, conto numa próxima oportunidade. Desta vez resolvemos fazer o caminho inverso. Nosso objetivo era chegar na Serra do Jalapão partindo de Alto Parnaíba. Para tanto seguimos por uma estrada inicialmente coberta de “poaca”, um tipo de pó, denso como a água, mas capaz de atravessar a malha da camiseta como se fosse um raio-x.  Além da poaca tivemos que enfrentar estradas de areias pesadas ao passar pela Serra da Galiléia até que chegar ao nosso destino. O calor era tanto que fazia arrepiar. Uma área de cerrado que não se vê o fim. Vegetação muito baixa. Sombra? Somente se ficasse embaixo da caminhonete. Esqueci de comentar: o ar condicionado não estava funcionando e assim ficou até o retorno a Santa Catarina. Na Serra do Jalapão foram captadas as imagens às quais Evandro havia planejado. Subimos o drone para um breve passeio e retornamos à Serra da Galiléia onde a beira do riacho montamos acampamento e preparamos o almoço. Um banho no rio é sempre bem-vindo, principalmente com tanto calor. O frescor da água, a tranquilidade, tudo aquilo parecida não ser real. Era como se estivessemos fora de nós mesmos. Não sei explicar. Talvez nem o queira. Sem se importar com a nossa presença, um pequeno pássaro parecido com um beija-flor, só que bem maior, estava a caçar insetos que sobrevoavam o riacho. Creio que ele queria deixar claro a nós que, aquele era o seu espaço e nós não fazíamos parte dali. O bichinho esperto tinha uma pontaria como nunca vi. Cada vôo era uma presa na certa. Tratava-se de uma ararimba.

No dia seguinte partimos sem o acompanhamento de nossos “guias”. Tínhamos a informação de que na comunidade de Morrinhos, havia um senhor que trabalhou por muitos anos junto a uma organização não governamental no estudo e preservação das Araras. Ah, as araras! Essas emplumadas fascinantes que cortam os céus num vôo familiar. O sentimento que tivemos ao vê-las “navegando” pelos ares, em pares ou em família, não saberíamos como descrever em textos… você tem que estar lá, e ver!

Foi então que chegamos até José Maria. O simpático senhor já sabia que iríamos procurá-lo. Apesar de Morrinhos não ter nenhum sinal de celular, a comunicação é facilitada pela internet, isso mesmo, tem conectividade lá, e da boa. A ONG que atuou na comunidade, por 15 anos, deixou como legado a construção de uma escola e posto de saúde que agora são mantidas pela prefeitura. Além disso, instalou internet via satélite é diponibilizada gratuitamente por Wi-fi para a comunidade. Ficamos impressionados! Mas voltando ao sr. José Maria; pense num camarada conhecedor dos hábitos das emplumadas. Em conversa com ele, tivemos boas e más notícias. As boas é que elas ainda vivem em abundância na região. As más, é que não é tão simples assim retratar as “meninas”. Antes é necessário cevar por alguns dias para atraí-las, ou seja, colocar em local específico o alimento que elas mais gostam (côco do buriti) a fim de que elas venham ao nosso encontro. Pronto! Sem chance! Foi o que pensamos num primeiro momento. Não temos tempo. Afinal seriam necessários no mínimo três dias de ceva para conseguir algo. Além disso, elas só descem em campos queimados para comer o côco. Seu Zé nos explicou que nos campos queimados, eleas se sentem mais seguras. Podem observar ao longe a presença de predadores (principalmente o homem). Além de queimar a área e cevar, seria necessário armar uma espécie de cabana, feita com folhas secas de palmeira, para camuflar-nos e podermos registrar a festa do banquete. Seu Zé se prontificou em preparar a área e fazer a ceva. Deveríamos aguardar por pelo menos dois dias. Então, neste intervalo aproveitamos para fotografar a Cachoeira do Riozinho, na comunidade de Cachoeira Grande. Saindo de Morrinhos foram cerca de 70 quilômetros percorridos até nosso destino. Acampamento montado esperávamos pelo horário ideal para fotografar. Evandro queria o final do dia, aquela luz que todo fotógrafo busca. Não demorou a o horário de ouro chegou. Os cliques disparados no tempo certo. Já se faziam as primeiras sombras do anoitecer quando apareceram alguns pescadores. Conversas rápidas e logo eles nos deixaram. Enfim a noite desceu. A lua chegou tímida por trás das nuvens lançando fachos de luz que davam uma aparência fantasiosa digna de uma noite de lobisomens, porém, magnífica. Na manhã seguinte levantamos acampamento e regressamos para a base, Morrinhos. Nossa esperança era de que teríamos boas notícias. Acompanhados do seu Zé Maria fomos até o local da ceva. Infelizmente, não seria daquela vez que conseguiríamos nos deleitar com as imagens das beldades emplumadas. A natureza tem dessas coisas. Nunca, nunca mesmo, é do jeito que queremos. Há de se ter o tempo ideal. O ideal da própria natureza. Assim aprendemos a lição mais uma vez. Para aproveitar a incursão fomos adiante para outros possíveis locais. Quando quase a desistir de nosso objetivo ouvimos o chalrar daquelas que por tanto ansiávamos. E para surpresa nossa, um casal de arara-azul grande, ameaçadas de extinção. Por entre os buritis elas voavam numa alegria contagiante, e motivos tinham de sobra, a comida ali era abundante. Mesmo sabendo da nossa presença (o homem é o seu principal predador) passaram por diversas vezes sobre as nossas cabeças como que se estivessem posando para a câmera. Um deleite para qualquer fotógrafo. Aquelas belas modelos riam dos seus observadores, tenho certeza disso. Em outro momento foi possível encontrar pelo caminho, um ninho de araras vermelhas, sobre um buriti já seco. As araras possuem baixa taxa reprodutiva, normalmente as fêmeas geram em cerca de dois filhotes, podendo somente um dos filhotes sobreviver. Eles passam a maior parte do tempo no ninho, sendo cuidados pelas fêmeas enquanto os machos são responsáveis pela alimentação. Nesse período, a possibilidade de predação é grande, por tucanos, gralhas ou outras aves e também algumas espécies de mamíferos, como o gambá. Os filhotes são alimentados pelos pais até os seis meses, pois são frágeis e precisam de cuidados. Aos três meses o corpo está coberto por penas e geralmente ocorre as primeiras tentativas de vôo. A nossa frente observávamos o macho alimentando um filhote, já grande e todo emplumado. Evandro tentava chegar cada vez mais próximo ao buriti seco. O pai arara, preocupado, saía do ninho num vôo não muito distante. Era certo que tentava nos distrair. Foi assim por quase uma dezena de vezes, até que então, o filhote tomou cara e coragem e se lançou no ar. Aos gritos, a família se lançou por sobre o buritizal até que os perdemos de vista. A natureza nos ensinando mais uma vez, sobre o tempo ideal. Aprendemos!

Em Alto Paranaíba é possível ainda, observar o lobo guará e a arpia. Mas há de se ter muito tempo e paciência. São animais em risco de extinção e muito ariscos. A única certeza que tínhamos era a de que seria necessário voltar, mais e mais vezes.

Enfim, nossa estada em Alto Parnaíba estava chegando ao fim, tínhamos que seguir a jornada. Seria a última tarde na cidade. Fomos até a margem do rio Parnaíba, que é divisor entre Alto Parnaíba no Maranhão e Santa Filomena no Piauí. Sem pretensão, estávamos apenas como observadores. Evandro sem suas “armas”. Ficamos por ali algum tempo, quando voltando para o hotel ouvimos mais uma vez o som já conhecido: eram araras. Fomos em busca da fonte daquele barulho todo. As emplumadas araras, desta vez, azuis e amarelas, faziam a maior festa no quintal de uma casa. Ali é a residência de Maroca e Hermes, um casal muito simpático. Pedimos para fotografar e nos deram a autorização. Mas como, caramba, a camera havia ficado no hotel, afinal, tinhamos saído sem pretensão alguma de fotografar. Já era final do dia, o sol rapidamente se escondendo. Lá fomos nós correndo até o hotel para pegar o equipamento e tentar registrar algo. Não deu muito certo. Quando conseguimos voltar o sol já havia baixado muito. Acabou que ficamos de prosa com o casal e observando as “meninas” fazerem a festa. Dona Maroca sugeriu que voltássemos na manhã seguinte. Apesar de ser o dia da nossa partida, foi o que fizemos. Logo pela manhã chegamos de volta da casa dos nossos mais novos amigos e aí então foi clique pra tudo quanto é lado. As modelos eram exibidas e barulhentas. Curiosas vinham em nossa direção querendo “pegar” a lente da câmera. Ao deixarmos Alto Parnaíba tínhamos a certeza de ter cumprido nossa missão, além de ter feito novos amigos que ficarão eternizados em nossos registros e em nossos corações. É!… a gente gosta mesmo do que faz!

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