Reserva Biológica do Gurupi

Resolvidos os problemas da “Valente”, seguimos para a Reserva Biológica do Gurupi, já na amazônia maranhense. Para acessar a base norte da reserva tivemos que seguir pelo Pará para posteriormente atravessar a fronteira e voltar ao Maranhão. No caminho a espectativa era grande, afinal, estaríamos na única reserva biológica do estado, de importância imesuarável. Já em terras paraenses, dentro da amazônia legal, a decepção começou a tomar conta pelo que víamos. A devastação da floresta para dar espaço às grandes plantações e pastagens para a criação de gado. Uma tristeza sem fim nos invadia de forma tão violenta, que parecia um soco no estômago. Mas temos esperança e isso nos fortalece. Ao olhar pelas janelas da “Valente” e ver aquilo tudo, pouco a pouco, fomos aprendendo a fortalecer os músculos da barriga para que os golpes perdessem a intensidade. Tarefa que ficou muito mais fácil quando acessamos as porteiras de entrada da reserva.

Ao chegarmos à frente da porteira principal encontramos trancada por cadeados. Gritos, buzinas. Buzinas? Estamos numa reserva, lembramos… falha nossa! Evandro tomou coragem e pulou a porteira e foi até a base que ficava uns duzentos metros a frente. Logo, um homem de moto veio para abri-la. Era o soldado Ferreira, que com o sargento Cruz (Comandante) e sargento Oliveira integravam a “Guarnição Freedom” da Polícia Ambiental do Maranhão, responsável pela proteção da base e da reserva do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio) – Reserva Biológica do Gurupi, para que pudéssemos adentrar à Amazônia maranhense. Os policiais permanecem de serviço na base da reserva, por um período de 30 dias, quando então são substituídos por outra guarnição. A Reserva Biológica do Gurupi já foi campo de conflitos com madeireiros e fazendeiros. Os conflitos já foram apaziguados, mas a corporação se mantém firme e forte para qualquer eventualidade.

Na base há uma casa que oferece conforto e segurança. Uma casa com dois pisos, rústica, feita de madeira. Na parte de baixo há dois depósitos e um espaço onde ficam os veículos militares; na parte de cima estão os quartos em que a guanição se aloja, uma grande sala, uma cozinha e uma varanda que cerca toda a casa. A energia elétrica provém de um gerador a diesel que é ligado por aproximadamente 3 horas ao final do dia para que todos possam carregar as baterias de celulares e assistir ao jornal da noite. Há uma antena que possibilita conexão com a internet e facilite a comunicação através dos celulares. Um painel solar mantém o modem wi-fi ativo durante todo o dia. Nem imaginávamos que teríamos tudo isso por lá. Devido ao calor, montamos nosso acampamento na varanda, afinal estávamos equipados com barracas, colchões infláveis e sacos de dormir, além de todo material necessário para preparar nossas refeições (fogão portátil, cilindo de gás, panelas, talheres, alimentos desidratados e não perecíveis e claro, água, muita água. Estávamos certos de que havíamos levado tudo o que seria necessário. Agora era nos prepararmos para as incursões. Foi então que o sargento Oliveira nos questionou sobre o combustível, se havíamos levado alguma reserva. Empolgados respondemos afirmativamente: – sim, viemos preparados. O tanque está praticamente cheio (60 litros) e temos ainda, um galão com mais 20 litros extras. A resposta do sargento: o último grupo de pesquisa que esteve aqui, trouxe 200 litros e não completaram o que gostariam de ter feito. “Tsc, tsc” – e nós iludidos pensando que nem usaríamos o que estava no tanque… lição aprendida! Sim, usamos tudo e boa parte dos 20 litros extras.

 

Na amazônia maranhense foram dias intensos. Orientados pelos policiais seguimos com muito cuidado reserva adentro.  A cada passo uma surpresa: os sons da mata, um casal de raposas que cruza o caminho, uma ave de rapina voando com sua presa nas garras, um coral de Jandaias, árvores imensas, marcas das unhas de Jaguatirica no caule imponente de uma grande árvore e flores dando um toque especial ao verde. Estávamos no paraíso, sem dúvida alguma.

Como não tínhamos combustível suficiente para novas incursões resolvemos encerrar nossa jornada, era o mais sábio a fazer naquele momento. Convictos de que seriam necessárias muitas incursões ainda para que a floresta amazônica nos deixasse fazer parte dela, reconhecemos a nossa fragilidade e respeitamos a situação. Naquele momento encerrávamos a primeira etapa da nossa Expedição Fotográfica Maranhão Profundo. Um misto de alegria e tristeza. Dúvidas? Com certeza, muitas; mas também esperança. Uma esperança que, assim como no simbolismo da andorinha, nos move e faz com que tenhamos forças para estarmos na estrada por tantos dias e desenvolver um projeto como este. Nosso foco é a preservação visual, mas a esperança é de que consigamos alentar até mesmo os corações mais duros para a luz do discernimento de que todos estaremos condenados se não houver o despertar da consciência para a preservação e revitalização da natureza que nos dá vida. Que todos compreendam a sincronicidade de que temos dito nestes escritos. Sincronicidade essa que nos faz sentir e viver para muito além do corpo físico. Agora regressamos aos nossos lares para recompor as forças e nos preparar para a segunda etapa que sem dúvida, será ainda mais desafiadora.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s