Tasso Fragoso – MA

Seguir é necessário. Novamente percorrer pela MA 006, ou o que sobrou dela. O cansaço físico já estava sendo mais presente. Quando da elaboração e planejamento do projeto pensamos que não seria necessário um dia para descanso. Que descansaríamos na estrada mesmo, ou seja, guiando. Pior coisa que fizemos. Tínhamos uma data fixa que era a de estar na cidade de Paraty, no Rio de Janeiro para o evento de fotografia Paraty em Foco. Ficou tudo bastante apertado. Não haveria tempo para parada, ou para descansar por um dia inteiro. Tipo aquele dia que você tira não fazer nada. Só na prática é que fomos entender que não foi muito sábia a nossa decisão. Mas… vamos lá não é? E fomos!

Em Tasso Fragoso nosso contato era Zuca Cândido – Secretária de Meio Ambiente e Turismo e Lirô Guimarães – Fotógrafo e Diretor do Museu do Cerrado. Em nossa chegada a Tasso Fragoso, Lirô Guimarães foi nos recepcionar. Num papo reto entre fotógrafos (Lirô e Evandro) ficaram pré-definidos os objetivos e as rotas a serem percorridas durante nossa permanência. Lirô nos relatou os problemas enfrentados para conseguir manter o Museu do Cerrado, um trabalho que ele vem desenvolvendo há pelo menos 20 anos, mas que ainda não conseguiu o devido apoio das esferas governamentais e que deixam em xeque todo o esforço. Em seguida fomos a casa da secretária de Meio Ambiente e Turismo Zuca Cândido para a devida apresentação. Sem demora, tudo ficou definido. Os trabalhos iniciariam na manhã seguinte.

Tasso Fragoso tem uma geografia muito interessante. Faz parte do polo turístico da chapada das mesas. Assim como Carolina, Riachão e Alto Parnaíba, possui formações rochosas chamadas de serras como se fossem mesas postas, aguardando os convidados para a ceia. A peculiaridade em Tasso é um morro conhecido como Moro do Garrafão você já deve imaginar por que leva este nome, né não? Pois bem! Na manhã seguinte como já de costume, cedinho, pegamos a valente e caímos na estrada. As distâncias em Tasso são bastante significantes pois o município tem uma área bastante grande. E você pode imaginar que percorrer, mesmo que pequenas distâncias, em estradas de terra, além de cansativo é moroso demais. Principalmente nesta situação, agora não com um, mas com dois fotógrafos a bordo… (brincadeira). O ato fotográfico exige muita paciência e esmero. O tempo de observação está totalmente atrelado ao ato do disparo. É preciso deixar o espírito livre, respirar fundo e sentir, isso mesmo, sentir, para que o momento exato de “atirar” esteja em plena sincronicidade com o local, mente, corpo e espírito. Acha que é pouco? Tenta pra ver!

Em nossa primeira incursão realizamos apenas o reconhecimento da área e dos objetivos. O olhar do fotógrafo é quem daria a diretriz para se saber o melhor horário e a posição ideal. Desta vez, a natureza parecia mais estática, parecia. Quando você adentra o cerrado pela primeira vez, principalmente no período de seca, a primeira impressão é de que só vai encontrar uma natureza morta e pior, queimada. Mas assim como nas outras passagens que tivemos em Carolina e Riachão, há de ser perceber rapidamente que é um engano. Além da exuberância da água que jorra das entranhas do chão e das serras, o cerrado oferece – como se fora um presente divino – uma diversidade de frutos em todas as épocas do ano. Como costumo dizer, são cores e sabores que tornam esse lugar ainda mais espetacular. A forma de vida simples do sertanejo é recheada de conhecimentos que são passados de geração a geração como um tesouro, que deve ser guardado, mas jamais esquecido. Passar por uma estrada na qual há diversos cajueiros, todos carregados de frutos, ali, bem ao nosso alcance, “olhando” pra nós, num chamamento impossível de não ser atendido. O aroma no ar e as nuances multicromáticas eram a combinação para a mistura perfeita de sensações. Lirô nos disse que: “- em cada cajueiro, mesmo que da mesma espécie, o sabor é completamente diferente” – Comprovamos! Cores e sabores inesquecíveis.

E falando em tesouro, não poderíamos deixar de registrar as inscrições rupestres. Em Tasso Fragoso há diversos sítios arqueológicos, e certamente que por aquelas serras ainda devem haver muitos mais escondidos (ou guardados) para serem revelados. Lirô não soube precisar as possíveis idades dessas inscrições. Ainda são objetos de estudo das Universidades Federais do Maranhão e do Piauí.

Tasso Fragoso é banhada pelo rio Parnaíba. Subindo o rio em direção a Alto Parnaíba é possível realizar um passeio que faz com que você fique perplexo. A beleza incrustrada nos paredões rochosos faz com que fiquemos em silêncio. Nenhuma palavra, apenas, contemplação. Por algum tempo o fotógrafo fica como se estivesse num estado de letargico. De repente, o movimento da vida que está por ali se faz tão intenso, que desperta o “caçador”. Os paredões e morros ao fundo se molduram no movimento de zig-zag costurado pelo Parnaíba. As aves desfilam em vôos simétricos à água. É como se deslizassem pelo ar sem esforço algum, apenas se deixando conduzir pelo veio de ar que se forma entre elas e as águas do Velho Monge.

Para fechar nossa jornada por Tasso Fragoso subimos um morro que ainda não foi batizado. Fica junto às margens da rodovia, a mesma MA006. Dali é possível ver como pano de fundo, o Morro Vermelho, já em terras piauienses. Logo a direita, o famoso Morro do Garrafão. A leste, há uma formação de serras que deixam a luz do sol penetrar por entre elas ao final do dia. Uma nova paisagem surge. O Morro do Garrafão é banhado por luzes e cores que não são possíveis de ser ver em outro horário. Mesmo nesta época de tamanha estiagem, as particulas de poeira e fumaça no ar fazem com que essas cores sejam ainda mais realçadas. As sombras intensificam-se nas paredes do lado oeste das serras. É o anúncio que está na hora de repousar. Os seres do dia se recolhem e dão espaço para os da noite. É o círculo da vida initerrupto, alheio a presença de meros observadores. Os “caçadores de imagens”, extasiados, cansados e completos. Que dia!

A cada cidade que passamos, um sentimento estranho se firma. Uma tristeza que num primeiro momento insiste em ficar, mas assim como veio, vai, passa. Conhecer tanta gente, e tanta coisa. Tudo num piscar de olhos e quando pensamos em respirar, bah! Lá estamos nós de novo, na estrada. Na busca pelo novo, ou mesmo pelo velho. Na verdade, nunca sabemos. É como se deixássemos para trás pessoas que já conhecíamos a muito tempo, quem sabe mesmo, um familiar ou alguém muito próximo. Um sentimento que ainda não conseguimos decifrar. Quem sabe, até o final desta expedição, tenhamos este discernimento e capacidade.

 

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